17 de setembro
Diante do avanço do câncer, qualidade dos exames diagnósticos é desafio para a segurança do paciente
No Dia Mundial da Segurança do Paciente, especialistas alertam que coleta, preservação e processamento adequados das amostras são fundamentais para a precisão do diagnóstico e a definição do tratamento.
Quando um paciente realiza uma biópsia para investigar uma suspeita de câncer, o material coletado inicia uma jornada que envolve diferentes profissionais, etapas, procedimentos e controles até que ela chegue ao médico patologista para análise e emissão do laudo.
“A qualidade laboratorial começa muito antes de o patologista, médico especialista no diagnóstico do câncer, observar a lâmina ao microscópio. Ela envolve desde a coleta e a preservação da amostra até os controles que garantem a confiabilidade do diagnóstico. Cada etapa desse processo impacta diretamente a segurança do paciente e orienta as decisões terapêuticas”, explica a Dra. Larissa Marinho, coordenadora da Qualidade e da Comissão de Acreditação do Programa de Acreditação e Controle da Qualidade (COA/PACQ) da Sociedade Brasileira de Patologia (SBP).
Essa relação entre qualidade da assistência e segurança ganha destaque em 17 de setembro, Dia Mundial da Segurança do Paciente. Em 2026, a Organização Mundial da Saúde (OMS) escolheu como tema da campanha “Cuidado seguro para doenças não transmissíveis”, grupo que inclui o câncer. Com o lema “Cuidado seguro para a vida!”, a iniciativa chama atenção para a prevenção de danos ao longo de todo o percurso assistencial, da prevenção e detecção precoce ao diagnóstico, tratamento, reabilitação e cuidados paliativos.
No Brasil, o desafio ganha dimensão diante do volume de pessoas que precisam acessar a rede de atenção oncológica. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 781 mil novos casos de câncer por ano no país entre 2026 e 2028. Quando excluídos os tumores de pele não melanoma, são aproximadamente 518 mil novos casos anuais.
Qualidade envolve uma cadeia de cuidados – O diagnóstico anatomopatológico é uma etapa fundamental da investigação de grande parte dos cânceres. É por meio da análise de células e tecidos que o patologista identifica a presença da doença e determina características do tumor que podem ser decisivas para a escolha do tratamento.
Para que essa análise ofereça informações confiáveis, entretanto, não basta a interpretação médica ao microscópio. A amostra precisa ser corretamente identificada, coletada, acondicionada, preservada, transportada e processada. Depois da análise, a elaboração, liberação e comunicação do laudo também integram esse percurso. Por isso, a segurança do diagnóstico depende de processos organizados e de controles que acompanhem o material desde sua obtenção até a entrega do resultado.
Em determinados tumores, preservar adequadamente a amostra assume importância ainda maior diante dos avanços da medicina de precisão. Além da análise morfológica e imuno-histoquímica, o material pode ser utilizado em testes moleculares capazes de identificar características do câncer que ajudam a definir o prognóstico e a selecionar terapias específicas.
“À medida que o diagnóstico do câncer incorpora novas tecnologias e informações moleculares, garantir a qualidade da amostra se torna ainda mais importante. É esse material que poderá fornecer informações fundamentais não apenas para o diagnóstico, mas também para a escolha de tratamentos cada vez mais individualizados”, explica a Dra. Larissa.
Diagnóstico em foco no relatório mundial – A discussão ocorre poucos meses depois da publicação do Global Status Report on Cancer 2026: The Future We Choose Together, lançado em julho pela OMS e pela Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC). Apresentado como a avaliação global mais abrangente já realizada sobre a situação do câncer, o documento analisa diferentes etapas do cuidado, da prevenção e detecção precoce ao diagnóstico, tratamento, cuidados paliativos e sobrevivência.
Entre as mensagens do relatório está a necessidade de fortalecer a capacidade dos sistemas de saúde para oferecer diagnóstico oportuno e de qualidade, incluindo o acesso a biópsias e aos serviços de Patologia. O documento também chama atenção para desigualdades entre países e populações no acesso às diferentes etapas do cuidado oncológico.
O cenário se torna ainda mais relevante diante do crescimento mundial esperado da doença. Material divulgado pelo Ministério da Saúde aponta que são esperados mais de 25 milhões de novos casos de câncer no mundo em 2030, ampliando a necessidade de preparar os sistemas de saúde para uma demanda crescente por prevenção, diagnóstico e tratamento.
Para a Dra. Larissa, esse cenário mostra que a discussão sobre qualidade não se limita ao funcionamento interno dos serviços. “A gestão da qualidade deixou de ser um tema restrito aos laboratórios e passou a ocupar uma posição estratégica para a saúde pública”, afirma.
No Dia Mundial da Segurança do Paciente, a SBP reforça que a segurança no cuidado oncológico também passa por etapas que muitas vezes permanecem invisíveis para quem realiza uma biópsia. Da identificação e preservação da amostra à precisão do laudo que chegará às mãos da equipe assistencial, cada processo contribui para que o diagnóstico ofereça as informações necessárias para definir o tratamento de forma cada vez mais segura e individualizada.
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