Carcinomas Primários da Vulva

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Karla Calaça Kabbach Prigenzi, Gustavo Rubino de Azevedo Focchi, Renata De Marchi Triglia e Rafael Calil Salim

I. Introdução

Este protocolo destina-se ao exame anatomopatológico de espécimes cirúrgicos de ressecção com diagnóstico ou suspeita de carcinoma primário da vulva, de acordo com as diretrizes do College of American Pathologists (CAP v5.1.0.0, junho de 2024), do International Collaboration on Cancer Reporting (ICCR, 2022) e da Classificação de Tumores da OMS, 5ª Edição (2020). O estadiamento segue a 9ª Edição do AJCC-UICC (2023) e o sistema FIGO 2021.

Procedimentos incluídos:

  • Excisão local
  • Excisão local ampliada
  • Vulvectomia simples parcial
  • Vulvectomia simples total
  • Vulvectomia radical parcial
  • Vulvectomia radical total
  • Com ou sem linfadenectomia inguinofemoral
  • Com ou sem biópsia de linfonodo sentinela (LNS)

Tipos tumorais incluídos:

  • Carcinoma de células escamosas (CEC) — todos os subtipos
  • Carcinoma basocelular
  • Adenocarcinoma (todos os subtipos)
  • Doença de Paget extramamária (com ou sem componente invasor)
  • Carcinoma de glândula de Bartholin (todos os subtipos)
  • Carcinoma de glândulas sudoríparas (apócrinas/écrinas, porocarcinoma, adenoide cístico)
  • Carcinoma neuroendócrino (pequenas células, grandes células, combinado)
  • Tumores de células germinativas / tumor de seio endodérmico

Este protocolo NÃO deve ser utilizado para:

  • Melanoma vulvar (utilizar protocolo específico de melanoma)
  • Sarcomas e linfomas
  • Tumores metastáticos para a vulva
  • Espécimes de biópsia diagnóstica sem margens identificáveis

II. Código de Topografia

CID-10:  C51.0 — Lábio maior  |  C51.1 — Lábio menor  |  C51.2 — Clitóris  |  C51.8 — Lesão invasiva da vulva  |  C51.9 — Vulva, SOE

CID-O (morfologia):  8070/3 CEC, SOE  |  8090/3 Carcinoma basocelular  |  8140/3 Adenocarcinoma, SOE  |  8542/3 Doença de Paget invasiva  |  8200/3 Adenoide cístico

III. Identificação

  • Dados pessoais da paciente (nome completo, data de nascimento)
  • Número de identificação do material no laboratório
  • Data de recebimento do material no laboratório
  • Nome do local de origem / solicitante
  • Nome do médico responsável pela coleta

IV. Informações Clínicas

1. HISTÓRICO CLÍNICO

  • Infecção por HPV de alto risco documentada
  • HSIL (NIV 2-3) / NIV de alto grau prévia ou concomitante
  • NIV diferenciada (NIVd) / líquen escleroso associado
  • NIVav HPV-independente (p53 selvagem)  identificada previamente
  • Líquen escleroso
  • Radioterapia pélvica prévia
  • Quimioterapia neoadjuvante prévia
  • Tratamento prévio conservador vulvar (ablação, excisão local)
  • Outros (especificar): ___________________________

2. PROCEDIMENTO CIRÚRGICO

  • Excisão local
  • Excisão local ampliada
  • Vulvectomia simples parcial
  • Vulvectomia simples total
  • Vulvectomia radical parcial
  • Vulvectomia radical total
  • Biópsia de linfonodo sentinela (LNS) inguinofemoral
  • Linfadenectomia inguinofemoral unilateral
  • Linfadenectomia inguinofemoral bilateral
  • Outro (especificar): ___________________________

3. INFORMAÇÕES CLÍNICAS ADICIONAIS

Estadiamento clínico (cTNM ou FIGO)  ___________________________

Achados de imagem relevantes  ___________________________

Outras informações pertinentes  ___________________________

V. Exame Macroscópico

1. TIPO E INTEGRIDADE DO ESPÉCIME

  • Excisão local
  • Excisão local ampliada
  • Vulvectomia simples parcial
  • Vulvectomia simples total
  • Vulvectomia radical parcial
  • Vulvectomia radical total
  • Outro (especificar): ___________________________

Integridade:

  • Íntegro
  • Fragmentado
  • Outro (especificar): ___________________________

2. FOCALIDADE

  • Unifocal
  • Multifocal (especificar número de focos e localização)
  • Não determinado

3. SÍTIO ANATÔMICO DO TUMOR

  • Lábio maior direito
  • Lábio maior esquerdo
  • Lábio maior bilateral
  • Lábio menor direito
  • Lábio menor esquerdo
  • Lábio menor bilateral
  • Clitóris
  • Glândula de Bartholin
  • Comissura anterior
  • Comissura posterior / fúrcula
  • Região perineal
  • Outros (especificar): ___________________________

4. DIMENSÕES DO TUMOR

Maior dimensão (mm)  ___________________________

Dimensões adicionais (mm)  ____ × ____ mm

  • Dimensão não determinada macroscopicamente (tumor detectado apenas microscopicamente)

5. ASPECTO MACROSCÓPICO DO TUMOR

  • Exofítico / polipoide
  • Endofítico / ulcerado
  • Exofítico e endofítico
  • Indeterminado (especificar motivo)

6. DISTÂNCIAS MACROSCÓPICAS ÀS MARGENS

Margem periférica mais próxima (mm)  ___________________________

Margem profunda mais próxima (mm)  ___________________________

Margem para estruturas adjacentes (uretra, vagina, ânus, se aplicável) (mm)  ___________________________

Identificação dos cassetes confeccionados

VI. Exame Microscópico

1. TIPO HISTOLÓGICO

Carcinoma de Células Escamosas (CCE):

  • Carcinoma de células escamosas HPV-associado
  • Carcinoma de células escamosas HPV-independente, p53 mutado
  • Carcinoma de células escamosas HPV-independente, p53 selvagem
  • Carcinoma de células escamosas, SOE (não classificável)

Outros carcinomas:

  • Carcinoma basocelular
  • Adenocarcinoma, SOE
  • Adenocarcinoma de tipo mamário
  • Adenocarcinoma de tipo intestinal
  • Doença de Paget extramamária com carcinoma invasor (especificar tipo)
  • Carcinoma de glândula apócrina
  • Carcinoma de glândula écrina
  • Porocarcinoma
  • Carcinoma adenoide cístico de glândula de Bartholin
  • Carcinoma de células escamosas de glândula de Bartholin
  • Adenocarcinoma de glândula de Bartholin
  • Carcinoma adenoescamoso de glândula de Bartholin
  • Carcinoma neuroendócrino de pequenas células
  • Carcinoma neuroendócrino de grandes células
  • Carcinoma neuroendócrino combinado (especificar componentes)
  • Tumor de células germinativas / tumor de seio endodérmico
  • Outro tipo histológico (especificar): ___________________________

2. GRAU HISTOLÓGICO

Grau:

  • GX — grau não pode ser avaliado
  • G1 — bem diferenciado
  • G2 — moderadamente diferenciado
  • G3 — pouco diferenciado

Nota: O grau histológico em CEC vulvar não possui sistema validado e não é recomendado como dado obrigatório (CAP v5.1.0.0, Nota E). O CEC HPV-independente frequentemente é queratinizante e bem diferenciado, mas paradoxalmente de pior prognóstico.

3. PROFUNDIDADE DE INVASÃO (mm)

Método FIGO 2021 / AJCC 9ª Ed. (core — obrigatório):

Medição da membrana basal da crista de rete displásica mais profunda adjacente ao tumor até o ponto de invasão mais profundo.

Profundidade de invasão — método FIGO 2021 (mm)  ___________________________

  • Profundidade de invasão não determinada (especificar motivo)

Método convencional (opcional / dado complementar):

Medição da papila dérmica superficial mais próxima ao tumor até o ponto de invasão mais profundo.

Profundidade de invasão — método convencional (mm)  ___________________________

Espessura tumoral (mm)  ___________________________

Nota: A espessura tumoral (medida da superfície do tumor até o ponto mais profundo de invasão) é diferente da profundidade de invasão e não deve ser utilizada para estadiamento.

4. PADRÃO DE CRESCIMENTO TUMORAL (OPCIONAL)

  • Infiltrativo
  • Pushing / bordas expansivas (broad front)
  • Indeterminado (especificar motivo)

5. EXTENSÃO PARA ÓRGÃOS ADJACENTES

  • Sem extensão para órgãos adjacentes
  • Vagina — terço distal / inferior (1/3 distal)
  • Vagina — terço proximal / superior ou médio (2/3 proximais)
  • Uretra — terço distal / inferior
  • Uretra — terço proximal / superior
  • Ânus
  • Mucosa vesical
  • Mucosa retal
  • Osso pélvico (fixação ao osso pélvico)
  • Outros (especificar): ___________________________

6. INVASÃO LINFOVASCULAR

  • Não identificada
  • Presente
  • Indeterminada (especificar motivo)

7. MARGENS CIRÚRGICAS

Margens para carcinoma invasor:

  • Todas as margens livres para carcinoma invasor
  • Margem cutânea/ de mucosa periférica comprometida por carcinoma invasor
  • Margem profunda comprometida por carcinoma invasor
  • Outra margem comprometida (especificar): ___________________________
  • Distância do carcinoma invasor à margem mais próxima: ___ mm
  • Indeterminadas (especificar motivo)

Margens para lesões intraepiteliais / precursoras:

  • Margem cutânea/ de mucosa periférica comprometida por HSIL (NIV 2-3)
  • Margem cutânea/ de mucosa periférica comprometida por NIV diferenciada (NIVd)
  • Margem cutânea/ de mucosa periférica comprometida por NIVav HPV-independente (p53 selvagem)
  • Margem cutânea/ de mucosa periférica comprometida por Doença de Paget intraepitelial
  • Margens cutânea/ de mucosa periférica livres para lesões intraepiteliais
  • Indeterminadas (especificar motivo)

8. LINFONODOS REGIONAIS

ATENÇÃO: Os únicos linfonodos REGIONAIS da vulva são os INGUINOFEMORAIS. Linfonodos pélvicos comprometidos = pM1 (metástase à distância).

Status geral dos linfonodos inguinofemorais:

  • Não submetidos / não encontrados
  • Todos os linfonodos negativos para tumor

Status geral dos linfonodos inguinofemorais: livres de neoplasia / comprometidos pela neoplasia (_/_)

  • ⁠Tamanho do maior depósito tumoral / Tamanho do linfonodo correspondente: _ mm / _ mm
  • ⁠⁠Extensão extralinfonodal/extracapsular: não detectada / presente
  • Linfonodo(s) fixo(s) ou ulcerado(s)
  • Ultrastaging realizado (especificar protocolo)
  • Extensão extranodal indeterminada

9. CLASSIFICAÇÃO pTNM — AJCC-UICC 9ª EDIÇÃO

Modificadores (se aplicável):

  • y — pós-terapia neoadjuvante
  • r — recidiva tumoral
  • (m) — tumores primários sincrônicos múltiplos
  • (sn) — procedimento de linfonodo sentinela

Categoria pT:

  • pT não atribuída (não pode ser determinada pelas informações disponíveis)
  • pTX — tumor primário não avaliável
  • pT1a — tumor ≤ 2 cm, com profundidade de invasão ≤ 1 mm (Método FIGO 2021)
  • pT1b — tumor > 2 cm, OU profundidade de invasão > 1 mm, confinado à vulva ou períneo
  • pT2 — tumor de qualquer tamanho com extensão a estruturas perineais adjacentes (1/3 distal / inferior da uretra, 1/3 distal / inferior da vagina, ânus)
  • pT3 — tumor de qualquer tamanho com extensão a estruturas perineais proximais / superiores (2/3 proximais / superiores da uretra, 2/3 proximais / superiores da vagina, mucosa vesical, mucosa retal) OU fixado ao osso pélvico
  • pT4 — tumor fixado ao osso pélvico

Categoria pN:

  • pN não atribuída (linfonodos não submetidos ou não encontrados)
  • pN0 — sem metástase em linfonodo regional
  • pN0(i+) — células tumorais isoladas (CIT) em linfonodo regional (≤ 0,2 mm)
  • pN1mi — micrometástase (> 0,2–2 mm)
  • pN1a — macrometástase > 2–5 mm
  • pN1b — macrometástase > 5 mm
  • pN1c — extensão extranodal (extracapsular)
  • pN2 — linfonodo(s) fixo(s) ou ulcerado(s)
  • pN3 — metástase em linfonodo(s) pélvico(s) (= pM1!)

Categoria pM:

  • pM1 — metástase à distância (incluindo linfonodos pélvicos)

10. ESTADIAMENTO FIGO 2021

  • IA — tumor ≤ 2 cm, confinado à vulva, profundidade de invasão ≤ 1 mm (Método FIGO 2021), sem comprometimento nodal
  • IB — tumor > 2 cm, OU profundidade de invasão > 1 mm, confinado à vulva/períneo, sem comprometimento nodal
  • II — tumor com extensão a estruturas perineais adjacentes (1/3 inferior da uretra, 1/3 inferior da vagina, ânus), sem comprometimento nodal
  • IIIA — qualquer T, com metástase em linfonodo(s) regional(is) ≤ 5 mm
  • IIIB — qualquer T, com metástase em linfonodo(s) regional(is) > 5 mm
  • IIIC — qualquer T, com extensão extranodal em linfonodo(s) regional(is)
  • IVA — qualquer T, com linfonodo(s) fixo(s) ou ulcerado(s)
  • IVB — metástase à distância (incluindo linfonodos pélvicos)

11. ACHADOS ADICIONAIS

  • Nenhum achado adicional relevante
  • Condiloma acuminado
  • LSIL (NIV 1) / lesão intraepitelial escamosa de baixo grau
  • HSIL (NIV 2)
  • HSIL (NIV 3)
  • NIV diferenciada (NIVd)
  • NIV acantótica verruciforme (NIVav)
  • Líquen escleroso
  • Líquen simples crônico
  • Outros (especificar): ___________________________

VII. Biomarcadores

Os biomarcadores p16, p53 e HER-2 têm relevância diagnóstica, prognóstica e potencialmente terapêutica nos carcinomas primários da vulva. A realização deve ser guiada pelo tipo histológico e contexto clínico. A classificação em CCE HPV-associado vs. HPV-independente (p53-mutado ou p53-selvagem) possui significado prognóstico estabelecido e impacto diagnóstico (CAP v5.1.0.0, Nota K; ICCR 2022).

1. p16 — IMUNO-HISTOQUÍMICA (IHQ)

Indicação: todos os CCE e lesões precursoras escamosas; adenocarcinomas quando relevante. Expressão difusa e em bloco (block-positive) = surrogate de HPV de alto risco. Expressão focal, (patchy) ou ausente = HPV-independente.

Resultado:

  • Anormal — expressão difusa, em bloco (“block-type”)
  • Normal — ausência de expressão ou expressão focal/”non-block-type”
  • Resultado não interpretável (especificar motivo)
  • Não realizada

2. p53 — IMUNO-HISTOQUÍMICA (IHQ)

Indicação: todos os CCE (especialmente HPV-negativos ou inconclusivos), NIVd, NIVav e lesões precursoras vulvares. Fundamental para a classificação tripartite dos CCE vulvares (HPV-associado / HPV-independente p53-mutado / HPV-independente p53-selvagem).

Padrões de expressão:

  • Normal  (do tipo selvagem)
  • Anormal  (do tipo mutado – sobre-expressão, nulo ou citoplasmática)
  • Anormal / de tipo mutado —subtipo null (ausência completa de expressão; controle
  • Resultado não interpretável (especificar motivo)
  • Não realizada

Nota: O subtipo sobreexpressão basal (basal overexpression) deve ser interpretado com cautela, pois pode ocorrer em lesões não neoplásicas (líquen escleroso, líquen plano, dermatite espongiótica). Deve ser correlacionado com morfologia e demais marcadores.

3. HPV-ISH — HIBRIDIZAÇÃO IN SITU PARA HPV (OPCIONAL)

Indicação: casos com morfologia ambígua onde p16 e p53 são inconclusivos; confirmação da via HPV-associada.

Resultado:

  • Positiva — HPV de alto risco (não especificado)
  • Positiva — HPV de baixo risco (não especificado)
  • Negativa
  • Não realizada / não aplicável

4. HER-2 — IMUNO-HISTOQUÍMICA (IHQ) E HIBRIDIZAÇÃO IN SITU (ISH)

Indicação: carcinomas avançados/recorrentes com indicação potencial de terapia-alvo. T-DXd (trastuzumabe-deruxtecana) possui aprovação agnóstica (abril 2024) para tumores sólidos com escore 3+ por IHQ.

HER-2 por IHQ:

  • Escore 0 (negativo) — sem marcação ou marcação de membrana em < 10% das células
  • Escore 1+ (negativo) — marcação de membrana fraca/imperceptível em ≥ 10% das células
  • Escore 2+ (duvidoso) — marcação de membrana fraca a moderada, completa/basolateral/lateral em ≥ 10% das células
  • Escore 3+ (positivo) — marcação de membrana forte, completa/basolateral/lateral em ≥ 10% das células
  • Não realizada

HER-2 por ISH (se IHQ 2+ e indicação de trastuzumabe):

  • Negativa (não amplificada)
  • Positiva (amplificada)
  • Não realizada / não aplicável

Razão HER2/CEP17 (se realizada)  ___________________________

Média de sinais HER2 por célula (se realizada)  ___________________________

VIII. Definições e Considerações

Informações Clínicas e Procedimento Cirúrgico

O carcinoma vulvar é responsável por 3–5% dos tumores malignos do trato genital feminino. A maioria são carcinomas de células escamosas (CEC), que seguem vias patogenéticas distintas: associada ao HPV (via HSIL) e independente do HPV (via VIN diferenciada [dVIN] ou via indeterminada via VAM/HPVi[p53wt]vaVIN). Cada via apresenta morfologia, perfil imuno-histoquímico, epidemiologia, comportamento clínico e prognóstico distintos (CAP v5.1.0.0, Nota C; ICCR 2022).

Classificação Tripartite do CEC Vulvar — HPV e p53 (CAP Nota C; Kortekaas et al., 2020; Carreras-Dieguez et al., 2023)

A tabela abaixo resume as principais características clínico-patológicas dos 3 subtipos de CEC vulvar:

Subtipo CEC Prevalência / Idade Lesão precursora p16 p53
HPV-associado 17–18% / 59 anos HSIL (NIV 2-3) Positivo “block-type” Normal selvagem (subtipo basal sparing)
HPV-independente, p53-mutado 66–72% / 75 anos NIVd Negativo / Positivo “non-block-type” Anormal/ de tipo mutado
HPV-independente, p53-selvagem 10–15% / 73 anos NIVav Negativo / Positivo “non-block-type” Normal/ selvagem

Carreras-Dieguez N et al. Human papillomavirus and p53 status define three types of vulvar squamous cell carcinomas with distinct clinical, pathological, and prognostic features. Histopathol. 2023;83(1):17–30.

Kortekaas KE et al. Vulvar cancer subclassification by HPV and p53 status results in three clinically distinct subtypes. Gynecol Oncol. 2020;159(3):649–656.

Lesões Precursoras

O HSIL (NIV 2-3) é a lesão precursora do CEC HPV-associado. Apresenta perda de maturação epitelial, hipercromatismo nuclear, aumento da relação núcleo/citoplasma e mitoses nas camadas superiores, com expressão difusa de p16 (“block-type”). O NIVd é a lesão precursora do CEC HPV-independente p53-mutante. Caracteriza-se por atipia celular basal, queratinização paradoxal e maturação anômala; tipicamente p53-anormal e p16-negativo/”non-block-type”. A NIVav é um grupo heterogêneo de lesões HPV-independentes com acantose verruciforme e maturação aberrante, sem relação com HSIL ou NIVd; mutações em PIK3CA, HRAS e NOTCH1 descritas.

Heller DS et al. Diagnostic criteria for differentiated vulvar intraepithelial neoplasia and vulvar aberrant maturation. J Low Genit Tract Dis. 2021;25(1):57–70.

Parra-Herran C et al. HPV-independent, p53-wild-type vulvar intraepithelial neoplasia: a review of nomenclature. Mod Pathol. 2022;35(10):1317–1326.

Profundidade de Invasão — Método FIGO 2021 vs. Convencional (CAP Nota F)

O método FIGO 2021 (adotado também pelo AJCC 9ª Ed.) mede a profundidade de invasão a partir da membrana basal da crista de rete displásica mais profunda adjacente ao tumor até o ponto de invasão mais profundo. Este método reduz o estadiamento de alguns tumores convencionalmente classificados como pT1b (invasão > 1 mm pelo método convencional) para pT1a, com impacto na indicação de linfadenectomia. O método convencional (papila dérmica superficial até o ponto mais profundo) deve ser documentado como dado complementar. Em casos de ambiguidade, registrar no laudo.

Van den Einden LC et al. An alternative way to measure the depth of invasion of vulvar squamous cell carcinoma in relation to prognosis. Mod Pathol. 2015;28(2):295–302.

Olawaiye AB et al. Cancer of the vulva: 2021. Int J Gynaecol Obstet. 2021;155(Suppl 1):7–18.

Linfonodos Regionais — Aspectos Específicos da Vulva

Apenas os linfonodos inguinofemorais são considerados regionais na vulva. O acometimento de linfonodos pélvicos configura metástase à distância (pM1 / FIGO IVB). A linfadenectomia do linfonodo sentinela (LNS) é uma alternativa estabelecida para casos selecionados em estádio inicial (GROINSS-V I e II), com alta acurácia e menor morbidade. O ultrastaging melhora a detecção de micrometástases (de 8,6% para até 41,7%). Tanto o tamanho do depósito metastático quanto a extensão extranodal (ENE) devem ser sempre documentados, pois impactam o estadiamento FIGO 2021 e o prognóstico.

Hoang L, Webster F, Bosse T, et al. Data Set for the Reporting of Carcinomas of the Vulva: Recommendations from the ICCR. Int J Gynecol Pathol. 2022;41(Suppl 1):S8–S22.

Te Grootenhuis NC et al. Sentinel nodes in vulvar cancer: Long-term follow-up of GROINSS-V I. Gynecol Oncol. 2016;140:8–14.

Classificação pTNM (AJCC 9ª Ed.) e FIGO 2021

Categoria pT / pN Descrição (AJCC 9ª Ed.) FIGO 2021
pT1a Tumor ≤ 2 cm, invasão ≤ 1 mm (Método FIGO 2021) IA
pT1b Tumor > 2 cm, OU invasão > 1 mm, confinado à vulva/períneo IB
pT2 Extensão ao 1/3 inf. uretra, 1/3 inf. vagina ou ânus II
pT3 Extensão ao 2/3 sup. uretra, 2/3 sup. vagina, bexiga, reto, OU fixação ao osso pélvico
pN1mi Micrometástase: > 0,2–2 mm IIIA
pN1a Macrometástase: > 2–5 mm IIIA
pN1b Macrometástase: > 5 mm IIIB
pN1c Extensão extranodal (extracapsular) IIIC
pN2 Linfonodo fixo ou ulcerado IVA
pM1 Metástase à distância (incl. linfonodos pélvicos) IVB

A classificação final é responsabilidade do médico assistente. pN3 (linfonodos pélvicos) equivale a pM1.

Considerações finais

Os modelos de laudos e as recomendações apresentados neste manual têm como objetivo promover a padronização dos relatórios anatomopatológicos em ginecopatologia no Brasil, refletindo o conhecimento científico e as classificações internacionalmente aceitas disponíveis no momento de sua elaboração. Não constituem, portanto, uma revisão exaustiva dos critérios diagnósticos de cada entidade e critérios de avaliação específicos dos parâmetros supracitados.

Considerando a publicação prevista de uma nova edição da WHO Classification of Tumours (Classificação de Tumores da Organização Mundial da Saúde) no segundo semestre de 2026, a qual poderá introduzir modificações na nomenclatura, nos critérios diagnósticos, na classificação das lesões e em recomendações relacionadas à prática diagnóstica, optou-se por não incluir descrições detalhadas destes aspectos neste momento.

Recomenda-se que a interpretação e a aplicação destes modelos sejam realizadas em conjunto com as versões mais recentes das classificações internacionais, consensos de especialistas e literatura científica pertinente.

Após a publicação da nova edição da Classificação da OMS (2026), a análise das atualizações pelos autores deste manual ficará disponível em adendo e em futuros guidelines que serão disponibilizados pela Sociedade Brasileira de Patologia.

IX. Bibliografia

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  2. Hoang L, Webster F, Bosse T, et al.; ICCR Working Group. Data Set for the Reporting of Carcinomas of the Vulva: Recommendations from the International Collaboration on Cancer Reporting (ICCR). Int J Gynecol Pathol. 2022;41(Suppl 1):S8–S22.
  3. WHO Classification of Tumours Editorial Board. Female Genital Tumours. WHO Classification of Tumours, 5th ed. Lyon: IARC Press; 2020.
  4. AJCC Version 9 Tumors of the Vulva Cancer Staging System. Copyright 2023 American College of Surgeons.
  5. Olawaiye AB, Cotler J, Cuello MA, et al. FIGO staging for carcinoma of the vulva: 2021 revision. Int J Gynaecol Obstet. 2021;155(1):43–47.
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